Roberto Rillo Bíscaro
Foi-se o tempo em que eu estava a par dos lançamentos musicais, sejam alternativos, sejam “comerciais” (como se a primeira categoria não almejasse vender, tocar pra grande público e não fosse parte de esquemas comerciais menores...). Falta de tempo e/ou de interesse, além do acúmulo de coisas antigas que quero ouvir porque deflagram minha memória afetiva são fatores que retardam ou inviabilizam o contato com o novo.
Foi-se o tempo em que eu estava a par dos lançamentos musicais, sejam alternativos, sejam “comerciais” (como se a primeira categoria não almejasse vender, tocar pra grande público e não fosse parte de esquemas comerciais menores...). Falta de tempo e/ou de interesse, além do acúmulo de coisas antigas que quero ouvir porque deflagram minha memória afetiva são fatores que retardam ou inviabilizam o contato com o novo.
De quando em vez, todavia, encontro tesouro lançado há
tempos e me apaixono. Foi o que sucedeu com o álbum In a Tidal Wave of Mystery,
de junho do ano passado da dupla norte-americana Capital Cities.
Não cesso de ouvir as 17
canções da Deluxe Edition do álbum escrito e produzido por Ryan Merchant e Sebu
Simonian. Bem, os remixes componentes da edição de luxo nada acrescentam às
originais, embora não sejam chatos ou ruins. Dá pra desfrutar de qualidade de
vida razoável sem essa edição.
Tamanho vício explica-se facilmente: In a Tidal Wave of
Mystery é caldeirão - em sua maior parte dançante – onde ebulem maneirismos,
sonoridades, ritmos e truques sônicos que alegraram o mundo pop no fim dos anos
70/primeira metade dos 80’s. Síntese perfeita dessa simbiose é Farrah Fawcett,
que até na letra sincretiza: o cabelo setentista da Pantera já caíra de moda,
quando Michael Jackson lançou o basilar Thriller (1983). “It’s good shit”,
cantam as backing vocals negras. Têm
razão, a faixa, aliás, é great shit!
Love Away viaja mais no tempo e lembra Beatles, até com
guitarra, instrumento não em abundância no álbum. O clima de
amanhecer/entardecer chiado de Lazy Lies mistura os meninos de Liverpool com os
alemães do Kraftwerk.
Tirando essas canções o
resto é misturança disco, funk, synth pop, Italo disco/synth, eurodance,
tocados com sintetizadores da época, que achávamos o máximo de avanço, mas que
a crítica contemporânea chama de lo-fi (baixa fidelidade). Mas, sem perder o
apelo sonoro pra geração que nasceu décadas após o auge das referências decantadas
no álbum.
Capital Cities esnoba o saxofone pra fartar-nos de
outro som característico da década oitentista: pistão, corneta ou
seja-lá-como-se-chama produzida em sintetizador. Isso deixa as canções podres
de chique, ouça Chantreuse caminhando e correrá o risco de começar a desfilar.
Como o Chromeo (leia resenha de seu também ótimo álbum
aqui), a dupla evita o peso artificial da bateria eletrônica, ponto de gosto
duvidoso da época em que In a Tidal Wave of Mystery bebe com mais sede.
Kangaroo Court e I Sold My Bed, But Not My Stereo podem
levar a clínica de reabilitação, de tão viciantes. Origami e Center Stage são
delícias pulantes que cheiram a Chic, mas têm outros elementos anexados.
Embora não essencial a Deluxe Edition traz pista
importante pra inspiração do duo: Regravação de Nothing Compares 2 U, dum dos
reis dos anos 80, Prince. Eles aceleraram a canção e a produção tá
superprimeira metade dos 80. Até Djavan usou a mesma estrutura rítmica e de
produção em alguma faixa de Lilás (1984) ou coisa que o valha.
De Bee Gees a Pet Shop
Boys, tá tudo no tsunami de alegria que é In a Tidal Wave of Mystery. Não
consigo mais viver sem.
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