DE VOLTA AO PASSADO...
José
Carlos Sebe Bom Meihy
Soube
que a Câmara Municipal de Taubaté, na
sessão de segunda-feira, dia 25 último, aprovou uma moção de repúdio à Fundação
Santander pela exposição “Queermuseu –
Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”. Convém lembrar, antes de
nada mais, que a referida condenação foi proposta pelo Movimento Brasil Livre
(MBL), organismo criado exatamente pelo grupo que advoga o sonso movimento
intitulado Escola Sem Partido.
Paradoxos a parte, vale dizer que a inconsistência conceitual de tal proposta
extrapola o limite da ignorância suportável. Em primeiro lugar, por usar sem
supor o que seja, o termo “ideologia”. Por “ideologia de gênero” – como dizem e
repetem outros segmentos igualmente desprovidos de condições analíticas –
supõem que haja alguma neutralidade social, que possa existir conhecimento sem
construção de fatos, e que censura equivale a limite permitido por seleção do
que pode ou não ser dito, ensinado, discutido. Ainda que seja elementar, cabe
começar pela inexistência de vazios políticos em qualquer sociedade.
Meus caros leitores, perdoem-me por evocar
Aristóteles (384 - 322 a.C.), pensador
que nos idos da antiguidade clássica, nos parâmetros do nascimento da filosofia,
definiu o mais básico valor da vida ocidental, alongada até nossos dias. Ao
dizer que, acima de tudo, “o homem é animal político
por natureza”. Aristóteles prezava a política como fundamento primeiro da democracia.
Compondo um sistema de ideias, o sábio grego pontificava que a vida social se
faz por meio de pactos que se assentam em noções inteligentes, não instintivas,
discutíveis, elaboradas na base dialógica do direito de universal de expressão.
Não há, portanto, vida social fora da política. E tudo – absolutamente tudo, de
um jeito ou de outro – é política.
Convém também lembrar que a história da
humanidade é um processo dinâmico, contínuo, transformador de pressupostos que
se superam. Ao mesmo tempo, deve-se aclarar que a criança, ou os educandos, não
são seres passivos, sem condições de reação, espécies moldáveis que um dia, sem
o exercício da prática deixaram de ser manipulados. Por lógico, há limites e
adequações, mas tudo dentro de circuitos que permitam combinação de
experiências e informações, e que não deformem e nem inibam a beleza do
conhecimento e da arte. Na mesma sintonia, cabe pensar que a crítica tem que
ser exercitada desde sempre, pois não cresce juízo sem debates e experimentação.
Fora desse âmbito, o que temos é a hipocrisia e a farsa que dão lugar a
deformação de caráter e ao recalque. A provar isso está o sucesso da
pornografia e o cinismo vestido de moral, implantado em autoridades (estas
sim), comprometidas com ideologias que se fantasiam de isentas ou santas.
Além do mais, a figura do professor – daquele
que como o nome revela “o que professa” – existe para propor, animar a
discussão, abrir debate. Não cobrem dos educadores a postura de ventríloquos, repetidores
de preceitos que sempre são organizados, construídos, políticos na direção
dogmática. O resultado secular de tentativa de controle das ciências e das
artes deu no que se apresenta agora: um bando de pessoas que se dizem
autoridades, que não assumem o significado da escola no mundo moderno,
decretando o que os educadores devem ou não indicar como matéria, vetando a
livre circulação do diálogo. É preciso repetir que a “não ideologia de gênero” é política, e má, e que se inscreve no
sentido mais atrasado da vivência social.
E que dizer dos que a defendem? No mínimo que
são pais ausentes, tutores que delegam às escolas o dever de diálogo, mas que,
ao ver o resultado se espantam. Aliás, o que se nota é a criação, nos próprios
lares, de autoritarismos que se reproduzem nos ambientes coletivos. Como se
ordem e obediência fossem virtudes inteligentes, o que se quer são gerações de
autômatos, de jovens alienados, viciados em internet, e a cada dia mais
distantes da democracia. E mais, pretende-se cidadãos que não sabem examinar a
cultura porque não aprenderam o sentido da beleza e no lugar veem o que temem
dentro de suas cabeças sujas. É exatamente neste rastro que advém a proposta do
ensino religioso, negando inclusive que nossa constituição advoga a limpidez do
estado laico. Em vez de propor nas escolas pagas pelos nossos salários
disciplinas que discutam religião (sem ideologia?!) por que não se advoga o
ensino de direitos humanos, meio ambiente, economia doméstica?
Mas cabe voltar a questão desta exposição citada
que pode ser vista na internet https://www.buzzfeed.com/tatianafarah/veja-30-obras-da-exposicao-censurada-no-santander-cultural?utm_term=.gt8oGMqka#.mrQ9Y2EWw. Um mero giro por algumas peças da mostra nos leva à
finalidade da exibição, a educação pelo olhar. Talvez, a mais representativa
desse exemplo de conduta pedagógica seja um retrato feito pelo Pedro
Américo (aquele o conhecido pelo quadro “Independência ou morte”), intitulado Busto
de Jovem, pintado e exposto em museus desde 1889 (portanto há bem mais de
um século e meio). A respeito deste retrato, o próprio catálogo da mostra diz
“O caráter idealizado dessa pintura não dissimula uma inclinação para a
sexualidade iotizada da juventude, cuja construção cultural está subjugada ao
olhar do pintor, refletida na instrumentalização hierárquica da atribuição de
erotismo do corpo. Se há um legado trazido pela contemporaneidade, foi
livrar-nos do obscurantismo do olhar e atribuir uma visão crítica ao modo como
vemos as imagens". Pensam que parou por aí, imaginemos a aberração do veto
que implica artistas do porte de Adriana Varejão, Alfredo Volpi (sim, o mesmo
das bandeirinhas), Bia Leite com um trabalho que alerta para o bullying disseminado nas escolas contra travestis.
A nova iconoclastia não para aí,
progride por Fernando Baril que mostra um trabalho aberto ao diálogo com
outras religiões, intitulado Cruzando
Jesus Cristo com Deusa Schiva. Talvez, a mais atual crítica seja a deste
mesmo pintor, sob o título Halterofilista, criticando o culto excessivo
ao corpo, aliás, o próprio catálogo indica a importância da crítica ao revelar
que "simultaneamente, no ápice da epidemia HIV/AIDS com seu ingresso na
comunidade gay, determina um longo período de estigmatização do corpo masculino
como lugar da doença", explica o catálogo da exposição. O que mais poderia
dizer em favor da liberação desta exposição. Vale recorrer a maior artista da
arte contemporânea brasileira, consagrada em todos os espaços crítico, Lygia Clark
que se representa pela obra profética intitulada Cabeça coletiva de 1975. Trata-se da simulação de uma cabeça
feita com trapos de panos coloridos mostrando a diversidade que não se explica
no vazio de mentes que não sabem nada além dos pecados que ocultam. Censura,
mas censura de verdade deveria existir, sim, poderia haver sanções contra outras
realidades, menos figurativas e mais atentas os restos humanos que se
multiplicam pelas ruas, que passam fome, que não tem direito à terra, ao
trabalho, e sequer a serem mostrados, desnudados como se supõem, em obras de
museus.
Dei a este escrito o nome de volta ao
passado. Acho, contudo, que não estou sendo leal sequer à Inquisição, pois como
se sabe, os queimadores de judeus e bruxas, de homossexuais e hereges tinham
mais conteúdo.
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