Roberto Rillo Bíscaro
Durante os anos 80, um senhor barbudo com voz rouca e parecendo
um anão de jardim, conquistou-me diversas vezes com baladas, temas de filmes e
novelas globais: Up Where We Belong, Edge Of a Dream, Even a Fool Would Let Go,
Don’t You Love Me Anymore são amadas e escutadas até hoje. Provavelmente a
coisa mais “pesada” foi o R’ n’ B meio domesticado de Unchain My Heart. Pelo
Som Pop ou símile já ouvira o definitiva cover
de With A Little Help From My Friends, dos Beatles, que entrou de vez pro
imaginário de muitos atuais 50tões brasucas, por ser tema de abertura da série
Anos Incríveis. Mas ouço/adoro muito mais as baladas.
A escassa mídia à mão naquele tempo aqui no interior
afirmava que o melhor de sua carreira já passara, e que o britânico a destruíra
devido ao abuso de substâncias químicas. Nunca me importei em saber detalhes ou
conhecer muito além do mencionado. OK, You Are So Beautiful tocava sempre nos
programas de flashback (recentemente
ainda a ouvi num carro sintonizado num desses programas), mas, quando desisti
de ouvir rádio em algum momento dos 90’s, perdi contato com Joe Cocker. Sabia
que lançava álbuns, percebi que seu visual ficava cada vez mais domado – tipo
de senhorzão alinhado mesmo – mas não escuto nada “novo” há uma geração. Soube
que participou do jubileu não sei do que da Rainha, compartilhei vídeos de
minhas baladas favoritas, quando morreu de câncer no pulmão, em 2014, mas Joe
pertencia aos cristalizados anos 80
Creio que assim permanecerá; suspeito que jamais pintará
ímpeto de conhecer muito do que veio antes ou depois. Mas, isso não seria
motivo pra eu deixar escapar Joe Cocker: Mad Dog With Soul, documentário deste
ano, da Netflix, que traça perfil bem chapa-branca do fã de Ray Charles e
Aretha Franklin, nascido na industrial Sheffield. Os 90 minutos de depoimentos
e imagens de arquivo funcionam mais como tributo (merecido) e cronologia pra
quem deseja conhecer medianamente sua carreira.
Catapultado ao semi-endeusamento pela seminal
performance em Woodstock, Cocker começou megaturnê pelos EUA, onde não ganhou dinheiro,
mas era tanta doideira que afetaria sua vida pessoal por décadas, porque foi
nela que o cantor se viciou em tudo quanto lhe davam. A partir daí, amigos,
parentes e colaboradores pintam boa autoimagem, além de construírem Joe como alma
extremamente gentil, incapaz de dizer não ao que lhe empurravam goela ou nariz
abaixo; incapaz de lidar sobriamente com as tais pressões do estrelato e do show bizz. Enfim, é a visão goethiana do
artista genial consumido pela arte. Nem o feroz mercado fonográfico parece ter
culpa alguma: como Cocker era sensível e afável demais, era antena pronta pra
captar quaisquer vibrações negativas.
Psicologicamente é retrato por demais raso e o coloca
mais como receptor do que como agente. Rita Coolidge afirma que na primeira
turnê Cocker chegou a ser ameaçado fisicamente pelos organizadores, quando
tentou desistir. Quando é preciso dizer que despediu seu empresário de anos por
carta e nunca mais falou com ele novamente, a coisa fica só nisso. Joe era
impulsivo, decidia algo e pronto, não há análise. Até parar de beber foi assim;
bateu um clique depois de velho e parou facilmente. Fodástico, heim?! Joe
Cocker: Mad Dog With a Soul não vira tabloide, porque evita mergulhar no lado
sombrio; mostra apenas a superfície.
O documentário jamais
entrará pra listas de mais influentes sobre roqueiros, mas se você, como eu, só
queria mesmo um panorama da carreira, até que serve.
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