Roberto Rillo Bíscaro
Quando Policarpo Quaresma cisma em aprender a tocar
violão, sua reputação de home sério começa desmoronar perante os vizinhos. À
época de Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), fino era tocar piano. Violão
era coisa de seresteiro vagabundo. O instrumento era associado às classes
populares pardas e pretas.
Naquele tempo, muito do que hoje é considerado
tipicamente “brasileiro” era marginalizado. Mais ou menos a partir dos anos
1930, o populismo de Getúlio Vargas começa a valorizar, violão, samba, feijoada,
miscigenação, carnaval, futebol.
Segundo determinado viés explicativo, esses e outros
elementos da influência afro em nossa cultura são apropriados pelos brancos,
num crescente processo de branqueamento da cultura.
Em 2008, Patrícia Fátima Crepaldi Bento da Silva
defendeu dissertação de mestrado na PUC paulista intitulada As transformações na música popular
brasileira: um processo de branqueamento, na qual defende que o movimento
da Bossa Nova foi o grande catalisador da exclusão dos músicos negros do panteão
dos grandes da MPB.
Os meninos e ninas brancos da zona sul carioca,
envoltos no afã modernizador dos anos JK, propuseram-se a refinar nossa música
popular, despindo o samba de sua negritude e excluindo afrodescendentes, como
Alaíde Costa e Johnny Alf. Segundo a autora, Jobim & Cia desprezavam o
sambão suburbano e transformaram-no em algo mais “branco”, palatável para a
classe-média ansiosa em ser cosmopolita. Com isso, o violão e a própria
profissão de músico passaram a ser valorizadas e influenciaram todo o
desenvolvimento histórico de nossa música popular, que passaria a se chamar MPB
alguns anos depois.
Nessa mesma perspectiva, a socióloga defende que todos
os “movimentos” musicais até o Tropicalismo fizeram o mesmo, a saber, a canção
de protesto, a jovem guarda e os festivais da canção.
Partindo do arcabouço crítico de José Ramos Tinhorão,
que sempre teve má vontade com tudo que não seja “popular”, a dissertação peca
por não problematizar seus referenciais teóricos, até porque Tinhorão não
morreu de amores pelo Tropicalismo só porque Gil é negro. Na verdade, ele
afirmou que era “uma boa malandragem”. Nem o “autêntico” Cartola escapou da
metralhadora tinhorânica: As Rosas Não Falam seria um plágio. E Cartola era
negrérrimo e não-bossanovsita.
A autora tem razão quando denuncia as tentativas de
minimizar ou desconsiderar os reclames dos afrodescendentes como vitimismo ou
apresentando as exceções confirmadoras da regra da exclusão. Seria o caso do
icônico Milton Nascimento, que aliás, também não escapou de Tinhorão. Um breve
passeio, que fosse, pelas principais posturas do controverso crítico
enriqueceria o trabalho.
As
transformações na música popular brasileira: um processo de branqueamento está
disponível para leitura/download no site:
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