Quando segregação racial era lei em partes
dos EUA e costume informalmente aceito no resto, Nat King Cole tornou-se
superastro, com sua voz aveludada, que ajudou a popificar o jazz.
Sua vasta celebridade e insistência em não
participar de movimentos políticos clamando por direitos civis não o pouparam
de inúmeros ataques racistas durante sua vida relativamente curta (morreu aos
45, de tanto fumar).
Alguns desses problemas raciais são abordados
mais por sua inevitabilidade do que por desejo, é a impressão que dá o
excessivamente laudatório Afraid Of The Dark (2014), que tem dedão da família
na produção. Cole realmente foi grande, mas o nível de idolatria edulcora
demais o documentário, que vira mais tributo. Merecido, mas tem momentos que
enjoa o rosário superlativo despejado por Tony Bennett, Johnny Mathis, Harry
Belafonte, George Benson e mais um monte de gente.
Afraid Of The Dark acaba provando mais o
limitado alcance que celebridades dessa ou daquela “minoria” tem na
desconstrução do preconceito. Não que não sejam vitais como representação
modelar pra autoestima, mas hoje tende-se a esperar demasiado que apenas
aparecendo na mídia, alguém dirima preconceitos. Se fosse tão fácil...
Outro ponto inferido é que
não adianta muito tentar imitar o opressor; a alteridade grita. Por mais suave,
elegante, educado que tenha sido Cole, isso não o livrou de ataque da KKK, de
ser agredido no palco em turnê pelo abertamente racista Sul, região que
boicotou tanto seu programa de TV, que patrocinadores tinham medo de associar
suas marcas a um afroamericano e a NBC o cancelou. Por outro lado, é notável
que a emissora tenha tentado um programa estrelado por um negro no início dos
50’s. E é aí que mora um dos dramas: era fácil pros brancos aceitarem voz negra
em suas eletrolas e rádios, até porque o som de Nat era bem branqueado.
Aparecer negro na TV era outra coisa, havia a imagem, havia a negritude ébana
do cantor, que até tentou ser grotescamente disfarçada, mas não deu. Só não
vale dizer que Nat foi o primeiro negro a ter programa na TV ianque, senão
apenas afirmamos o apagamento de Hazel Scott e Billy Daniels.
Tendo em mente o tempo todo, que Afraid Of the
Dark é chapa-albina de tão branca, dá pra usar as informações do documentário
pra problematizar várias questões, além de aprender sobre a fundamental
importância do artista pra que a Capitol Records se tornasse potência e que o
“Rei” era exímio pianista e estava no mesmo nível de estrelato dum Sinatra, em
seu auge.
Depois de sua participação no álbum Caracal, do Disclosure, a carreira de Gregory Porter entrou no meu radar. Coroa metido a
hipster, ao invés de descobri-lo em
círculos jazzísticos, mais apropriados a um 50tão, conheci-o em álbum de
molecada de UK Garage.
Os britânicos curtem o norte-americano: seu
álbum mais recente, Nat King Cole & Me, cravou terceiro lugar na parada
anglo-escocesa.
Lançado em fins de outubro, Nat King Cole
& Me, em sua edição de luxo, traz quinzena de canções interpretadas ou
ligadas ao falecido crooner. Porter
explicou que se trata de álbum-tributo, porque Cole serviu como figura paterna
pro solitário Gregory, crescendo na Califórnia.
Porter abre com trinca-chumbo grosso: Mona
Lisa, Smile e Nature Boy são três dos maiores sucessos de Cole, daqueles que
até ouvintes casuais conhecem, devido a trilhas-sonoras, comerciais, enfim, nem
é preciso conhecer Nat Cole. Os arranjos são carbonados dos anos 50, assim como
no restante do álbum, que oscila entre a balada e números mais jazzy, como L-O-V-E, com pistão e tudo.
Para o ouvinte casual, o maior desafio
certamente será When Love Was King que estoura em muito o tempo médio de 3,5
minutos da canção pop. São quase 8 minutos meio deprês e pouco assobiáveis.
Mas, imediatamente entram os menos de 3 minutos de Ballerina, com seu arranjo
jazz de jantar dançante chique nova-iorquino.
Hoje é engraçado ouvir letras como a de But
Beautiful: Love is tearful, or it's gay. Há
não muitas décadas, gay significava
só alegre. Mas, por que vocês acham que essa foi uma das duetadas entre Lady
Gaga e Tony Bennett? Adivinha quem canta essa frase... Mesmo sem ser superior à
de Porter, o aspecto subversivo destaca a versão da diva pop e do octogenário crooner.
E eis o grande dilema de Nat
King Cole & Me: é tudo muito bem cantado e produzido, mas não acrescenta
nada ao já gravado tantas vezes. Valeu como tributo, mas aguardamos o sucessor
de Take Me To The Alley, em termos de material inédito.
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